terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Sampa

O prédio fica na esquina da Basílio com a Avenida São Luiz. Da sacada dá pra ver o Edifício Itália, a praça da República e a Avenida Ipiranga. Tem gente que diz que sou pirada. Uma praça cheia de mendigos, uma avenida de trânsito caótico, tanta gente. Acho tudo lindo. O pé direito é enorme. A cortina é branca e bem comprida, acompanhando todos aqueles infindáveis vidros do teto ao chão. Oscar Niemeyer. Pouca gente sabe, mas o prédio saiu de seus desenhos.
Bem embaixo tem uma banca enorme, daquelas com todas as revistas importadas necessárias pra nossa sobrevivência. Tem uma lanchonete que faz aquele sanduíche de queijo minas quente no pão integral e o suco de açaí com laranja. Sem açúcar. Nem preciso dizer. O Marcos já sabe. -O de sempre? Tudo isso pela bagatela de 5,70... O sabor é real. A beleza também. Não é o luxo fake dos jardins. Arquitetura, gente, pouca cor e muita dor. É pecado ver beleza?
Dali eu posso partir pra qualquer lugar. Posso pegar o metrô pra Liberdade depois de assistir a missa no mosteiro de São Bento. De metrô também vou ao Masp e na Fnac com le petit enfant. Se for de carro, vou ao cinema, na sua casa e no Bar do Léo que tem o único chopp que me dá um prazer incrível de tomar e me tornou habituee de suas mesas. Mas bom mesmo só se a Paula for.
Surpreendentemente me sinto segura em seus arredores. Não aperto o passo. Seguro a bolsa, mas acho que isso já virou cacoete de paulistana. Não tenho medo. Embora muitos estejam desesperados por qualquer coisa que possam trocar por uma pedra, a maioria só escolheu o centro como estilo de vida. Temos algo em comum.
Quinzenalmente as crianças estão fora. A esse formato eu já me acostumei. Se quiser você pode até dormir aqui. Se a gente acordar mais animado, estamos a alguns passos da casa de todas as casas. Dá pra ir a pé. Só pra conferir a elegância nada discreta das nossas meninas. Nosso love tem muito story.
Pela manhã, bate um solzinho na sacada e tomo o café ali lendo o jornal. A notícias são as mesmas. Gente que rouba, gente que mata. Bolsa que sobe, bolsa que desce. Mas estou sozinha. Ainda que você não tenha ido embora, não me atreveria a acordá-lo. Dormir pouco é coisa minha. Coisa de mãe. Coisa de mãe que mora no centro.
Não sei até quando ficarei por aqui. Talvez o aluguel suba demais. Talvez o trânsito me obrigue a morar perto da escola das crianças. Mas enquanto isso eu vou ficando. Na confusão, no concreto, no cinza. Enquanto alguma coisa acontecer no meu coração.

Um comentário:

Paula disse...

Sabe o que eu acho? Você é bem melhor que o Caetano. Lindo, lindo, lindo texto.