terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Bem aventurada

Quem a espera?
Quem a desperta?
Quem pode ouví-la?

Quem troca seu pneu quando chove?
Quem vai buscá-la no aeroporto quando chega?
Quem cobre sua conta quando ela estoura?

Quem a consola?
Quem a compreende?
Quem conhece seu segredo?

Seus vinis na vitrola
seu all star e seu cabelo vermelho.

Matuta
Matrera
Marrenta.
Inesperada...
Me conta sua aventura porque já me abri pra sua chegada.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

Camisa de força

As palavras desapareceram. Estou procurando por elas. Não as encontro em lugar algum. Procurei em Juquehy, procurei na Espanha, procurei em São Paulo. Afinal, onde é que elas se meteram?
Talvez estejam fugindo de mim. Ou talvez tenham expedido uma ordem judicial para que eu fique longe delas. Estão com medo de mim.
Eu sou amiga das palavras. Então é possível que esse sumiço seja um cuidado delas comigo. Elas sabem que estou deveras fora de controle. E posso fazer coisas absurdas com elas. E consequentemente, comigo.
Falo palavras certas para as pessoas erradas. Escrevo palavras erradas para as pessoas certas. Falo menos pra quem merece mais. Escrevo mais pra quem não merece nada.
Pode ser que seja um motim das palavras. Rebelaram-se e deixaram-me no black-out absoluto até que eu aprenda como usá-las. Usar com moderação. Mas eu não sou moderada. Não modero na bebida, não modero nos amores. Como ser moderada com as palavras?
Como amigas que são, as palavras estão em greve. Sabem que as uso pra alimentar muita coisa que não é boa dentro de mim. Sabem que tem determinados sentimentos, desejos e vontades que precisam de dieta. Chega de alimentá-los. Conhecendo minha limitação, as palavras agiram por si mesmas. Sumiram.
Esse negócio de se abster daquilo que a gente gosta não é nada fácil. E a síndrome da abstinência das palavras também não é. Fico horas olhando pro teclado esperando que elas me dêem uma trégua, mas nada. Elas temem que eu tenha uma recaída e desande a mandar mensagens, fazer telefonemas e volte a alimentar tudo que precisa morrer de inanição.
Enquanto isso permaneço assim.
Sem palavras.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

Sincronicidade

Estamos aqui há séculos e séculos e séculos.
Mas sabemos que não vamos ficar para o próximo.
Pra você e pra mim reservamos o melhor.
Quem afinal sabe o que queremos?

Queremos ficar enquanto estamos
queremos ser enquanto passamos.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

Rascunho de uma vida plena - plágio pela saudade de você e dos seus textos

E se eu quiser fazer tudo ao mesmo tempo agora misturado continuo interrompido comprido ou compactado?
Se eu quiser ler todos os livros, assistir todos os filmes, sair com todos os amigos, falar menos do que penso e pensar menos no que não importa? E se eu precisar urgentemente sentir todos os cheiros, saber todas as notícias, entender de todos os assuntos, experimentar todos os sabores sem o estômago cansar e o peso aumentar?
E se minha postura precisar de ioga, mas minha energia pedir aulas de circo, minha insatisfação com meu corpo exigir RPM e musculação por horas, horas e horas? Será que dá? E se minha franja fosse domesticável e meu cabelo saísse do mar do mesmo jeito que sai da escova?
E se a minha idéia de guarda-roupa for encontrar os brincos que imagino, todas as sapatilhas rasinhas, todos os vestidos mais curtos, todas as blusas únicas e especiais, todos os jeans de caimento perfeito, todos os biquínis, e todas as bolsas de todas as cores e todos os tamanhos que trocam-se sozinhas pra eu nunca esquecer de nada quando saio? E se banheiro for todos os cosméticos de última geração, todos os gloss, pincéis e necessaires da MAC, toda iluminação e todo espelho?
Ah, e se eu quiser fazer um curso de história da arte, outro de economia, outro do mercado financeiro, mais um do mercado financeiro, de filosofia, de redação, de violão, guitarra e canto? E se eu quiser aprender todos os idiomas (especialmente o francês), praticar artes marciais e meditação transcedental?
Se eu quiser correr todos os dias, levar meus filhos pro colégio depois de tomar café com eles, seguir uma alimentação regrada e saudável e sempre falar baixo? E se eu dormir todas as noites ou madrugadas me orgulhando das minhas escolhas? E se eu sair pra todos os shows, todas as cervejas, todas as festas e dates sem culpa, poder tomar todas sem fazer nenhum telefonema, abraçar todos que eu gostaria, tomar toda vodka sem me esquecer de nada no dia seguinte, ligar pra todos que estão longe, expor todos os meus sentimentos? E se eu quiser acabar com todos os joguinhos? Jogar só o playstation, ter toda a energia e paciência com as crianças e toda tolerância com a minha mãe? E se todos os cigarros que meu pai fuma fossem inofencivos?
E se eu não decepcionar mais as pessoas queridas, e finalmente for morar na Av. São Luis, encontrar o colégio adequado pras crianças bem pertinho, a babá perfeita more em casa, ter as costas leves e a mala pesada para viajar pra onde eu quiser e bem entender, todas as vezes que eu tiver vontade? E se eu tivesse o tempo suficiente, o dinheiro necessário, toda coragem, toda força e todo o discernimento e objetividade?
E se eu parasse de sonhar e vivesse mais com o que eu tenho, com o que eu posso, com o que eu sou?






quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

Tempos Modernos

Em 1982, você disse que via um novo começo de era. Viu onde? É uma profecia? Se for, será que dá pra ser mais preciso e dizer quando exatamente veremos esse mundo regido por gente fina, elegante e sincera?
Você não é nenhum cientista político, sociólogo ou estudioso. Muito pelo contrário. É poeta. E todos sabemos que o que um poeta diz não se escreve. Ainda mais você. Autodenominado o último romântico. Mas sabe como é. Temos sempre uma tendência a nos apegarmos a boas previsões.
Essa ritualística toda de ano novo, esse clima todo de otimismo, sempre me remetem às suas palavras. Como se todos os fogos fossem capazes de derrubar o muro de hipocrisia que insiste em nos rodear e explodir toda essa gentinha que insiste em segurá-lo.
Eu não sei se você escreveu no final do ano. Talvez tenha escrito em um momento bom da vida. Nesses momentos que o nosso coração se enche de esperança pelo que virá. Mera indolência. Mera redundância. A gente só se enche de esperança quando tá num momento bom mesmo.
Mas olha, vou te dizer uma coisa. Não é que eu quero crer. Eu creio no amor numa boa. Já acreditava no ano passado, no retrasado, no tetrasado. E nesse ano, vou continuar acreditando. E vou continuar realizando a força de todas as paixões que esse ano reservar. Doa a quem doer. Na maioria das vezes, eu mesma.
Passaram-se 26 anos desde sua profecia. O tempo continua voando. Mas nós, que voamos junto, continuamos abraçando e reivindicando toda satisfação a que temos direito. Do firmamento ao chão.



quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

Coisa boa é Deus quem dá, besteira é a gente que faz

Não que eu goste do nada. Mas a dualidade das intenções dos que ora amam e ora usam, me afeiçoou à clareza da sacanagem e a certeza do vazio.

terça-feira, 1 de janeiro de 2008

1 de Janeiro

Ontem eu não pulei onda alguma. Estava de frente pro mar. As ondas estavam lá. Mas eu só fiquei olhando.
Ontem eu não comi lentilhas, uvas, romãs... Elas estavam à mesa. Foram servidas na ceia. Mas eu só fiquei olhando.
Ontem eu não vesti calcinha nova. Até cheguei a comprar. Listrada de todas as cores. Mas antes, acabei usando.
Ontem não fiz listas do que quero deixar no ano que se foi. Nem tampouco do que espero para o próximo. Acho que fiquei indecisa. Tanta gente. Tanta promessa. Tanto desejo. Achei melhor ficar só olhando.
Ontem quando a contagem regressiva terminou, eu não te beijei. Você estava lá. Olhamos pro mesmo céu. Não achei melhor. Ainda sim só pude ficar olhando.