sexta-feira, 30 de novembro de 2007

Só pode estar faltando alguma coisa

Quanto pesa uma palavra?
100 gramas, 3 quilos ou 1 tonelada?
Depende da balança do ouvido
ou da boca que deveria estar fechada?

A balança do ouvido
é como impressão digital
cada um tem a sua
e a de ninguém é igual.

Se o ouvido tem balança
por que que a boca não tem?
poderíamos pesar as palavras
pra não dizer o que não convém.

Boca e ouvido
todos os dois tem balança
o problema é a regulagem
varia demais e causa a lambança.

Não regular as balanças
de Deus deve ser pegadinha
Pra ficar sentado na nuvem
nas horas vagas tirando casquinha.

Todo mundo ecoa
palavra leve ou palavra pesada
mas a balança nunca alerta
se causará choro se causará risada.

Se o problema da balança
é assunto da boca e do ouvido,
por que é que a palavra solta
deixa mesmo é o coração doído?

A mesma palavrinha
pode variar peso e volume
depende da importância do dono da boca
no coração de quem não está imune.

Remetente e destinatário
também apresentam balança incompatível
a conclusão a que se chega
é que a comunicação é mesmo impossível

Aquele lance da Torre de Babel
rolou lá nos tempos de outrora
só pode ser maldição das bravas
tanta linha cruzada até agora.

Enquanto isso vamos tentando
pesa fala pesa escuta
aguardando que a balança seja equiparada
pra nossa conversa deixar de ser luta.

quinta-feira, 29 de novembro de 2007

Era uma vez...

Sempre ficava frustrada quando as histórias acabavam. Sempre a mesma coisa. Sempre o mesmo final que não é o final. Nos livros, nos filmes ou nas novelas, sempre o mesmo the end.
Nas fábulas o papo era sempre o mesmo: ... e eles foram felizes para sempre! E eu ficava lá, elocubrando quantos filhos a cinderela teve, se ela tinha problemas de relacionamento com a sogra rainha, se o corpinho dela continuou igual depois da gravidez...
E as novelas? Alguém duvida que no último capítulo vai ter um casamento lindo, campestre, igreja lotada de flores e de gente num lindo dia de sol? Mas e depois querido autor, o que acontece? As Helenas não se irritam quando seus formosos esposos chegam tarde em casa sem avisar? O Carlos Henrique nunca tem problemas de grana e fica sem saber como pagar a mensalidade da escola das crianças?
Mas afinal, quando é que é esse final?
A maioria da mulheres que conheço - e das que não conheço também - já nascem sonhando com esse momento. O momento do final feliz. O momento glorioso do the end. O dia em que serão finalmente felizes para sempre. Como também leram todas as fábulas e assistiram a todas as novelas, normalmente em suas cabecinhas, esse momento confunde-se com o dia em que encontrarão seu príncipe, sua alma gêmea. Eleitos para quem devotarão suas miseráveis existências. Fico me perguntando - será que elas não ficavam curiosas pra saber o que vinha depois? Ou será que é o contrário? Ficaram tão curiosas que passaram a correr desesperadamente afim de desvendar tal mistério?
Misteriosa também, é a interpretação que o mulheril fez da frase final. Onde se lê foram felizes para sempre leram: só foram felizes a partir desse momento. Desde então o dogma é seguido de geração em geração. Até esse grande dia, nada de ser feliz. A vida fica dividida em A.P. e D.P. Antes e depois do príncipe. Antes, lêem artigos e mais artigos de como conquistá-lo, de onde encontrá-lo, de como reconhecê-lo e infindáveis variações sobre o mesmo tema. Quando o ilustre candidato a tão aspirado posto surge, vêm os testes. Testam nas mesmas elevadas publicações se ele é o homem ideal, se é fiel, se o santo bate... Os conselhos tornam-se mantras. Nada de sexo no primeiro encontro e nada de dizer claramente o que pensa e sente pra não assustar o promissor possuidor da chave dos seus futuros dias felizes. Os dias que compõe a era antes alternam-se entre a agonia do telefone que não toca e os planos cor-de-rosa do nome dos filhos e da casa de praia que terão.
Outro ponto que merece investigação é o porquê das mulheres que pertencem a Era D.P. não esclarecerem esse mal entendido para as que pertecem a Era A.P. Elas já sabem! Já sabem que talvez, depois do gran finale, elas não serão tão felizes assim. Já sabem o que vem depois. O príncipe não quer saber de ajudar a olhar as crianças, a Cinderela não tem mais tempo para se encontrar com as amigas, o sexo fica meio arroz com feijão, o príncipe não repara que a Cinderela mudou o visual, o dinheiro não dá pra fazer uma viagem de lua-de-mel por ano... Não que isso tudo aconteça em todos os castelos e não que isso tudo torne as Cinderelas mais ou menos felizes. Mas peloamordedeus - esperar todo esse tempo pra ser feliz? E se o príncipe não aparece? E se o príncipe aparece mas depois do the end vira um baita sapo?
Algumas sócias generosas do seleto grupo das felizes para sempre (normalmente as mães), até tentam alertar as que estão na busca: Menina, a coisa não é bem assim! O céu não é de brigadeiro! Viva feliz hoje! Saia com as amigas, enfie o pé na jaca, dê para o maior número de homens interessantes possíveis, experimente, viaje, estude! Claro que a trama desses cérebros foi tecida com linha forte, daquelas grossas, pretas que alerta nenhum consegue afrouxar e elas continuam com o pensamento viciado na infelicidade de não terem encontrado o príncipe. Nem reparam como já dava pra ser feliz... Com príncipe, sem príncipe, com sapo, sem sapo, com anões, madrasta, grilo falante, fada madrinha, ou qualquer outro personagem que esteja nas suas fábulas.
Claro que pra mim é fácil falar de tudo isso já que não tenho um, mas dois príncipes: João e Bento. Um mais encantado que o outro. E embora minha vida não tenha chegado no the end, eu já comecei a ser feliz para sempre.

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

A beleza do deserto está em saber que em algum lugar ele esconde uma fonte

De quem é a culpa? De quem convida pra entrar e abre a porta ou de quem aceita o convite e vai entrando? Um dia, o pequeno príncipe abrigou a rosa. Colocou sob a redoma. Abrigou com o pára-vento. Matou suas larvas (exceto duas ou três por causa das borboletas). Escutou queixar-se ou gabar-se, ou mesmo calar-se algumas vezes. A rosa não fez nada. Ou fez? O príncipe é envolvente, cuidadoso... Mas afinal, a rosa não está dando atenção a ele? Ela poderia, a qualquer tempo, responder com a delicadeza que lhe é peculiar: - Não, obrigada príncipe. Ou ainda: - Ah, é uma pena, mas hoje eu não posso.
A raposa me ensinou que somos eternamente responsáveis por aquilo que cativamos. Mas se a raposa não quisesse ser cativada, não perderia seu precioso tempo e sapiência com o principezinho... Ah raposa! Mas será que vale a pena?
Na lição da raposa, sempre ganhamos ao nos deixarmos cativar. Podemos dar sentido a tantas coisas sem sentido ao nos deixarmos cativar! Passamos a amar o barulho do vento no trigo, as garrafinhas de água mineral enevadas quando geladinhas, os óculos de leitura essenciais na hora de pagar a conta. "Todo o universo muda de sentido, se num lugar, que não sabemos onde, um carneiro, que não conhecemos, comeu ou não uma rosa..."
Mas é claro que a sábia raposa também experimentou o preço dessa felicidade. Embora começasse a ser feliz desde às três, quando o príncipe prometeu aparecer às quatro, às quatro estaria inquieta e agitada. Deu pra lembrar? O estômago cozinhando no próprio suco enquanto espera o telefone tocar, as mãozinhas suando antes dele aparecer... Então a mágica acontece. O príncipe chega, o telefone toca ou ele aparece. Os sininhos só tocam porque você se deixou cativar. Agora você não teria dúvidas se vale ou não a pena, né?
Mas quando chega a hora da partida, a raposa chora. A rosa chora. Eu choro, você chora, todo mundo chora. O príncipe fica sem entender nada. - Ué? Mas você não queria que eu te cativasse? Tem príncipes, nem tão pequenos assim, que entendem menos ainda: -Ué, mas quem disse que eu tava te cativando? Nesse caso, o choro é um pouco maior porque a rosa percebe que não é única, nem especial. O príncipe passará por campos de rosas e não lembrará de rosa mais ou menos graciosa. E agora? Vale a pena ou não vale?
Pra raposa o lucro é certo, e no final da história, todo mundo acaba concordando com ela porque só quem se deixa cativar tem estrelas que riem, campos de trigo que cantam e locutores que gritam a noite toda...

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

L'uomo, questo squilibrato


"O tempo é a tardança do que está por vir."
Martín Fierro


Desbordamos todos os esquemas, nada nos encaixa. Sempre nos sobra alguma coisa. Por mais aprisionados que estejamos, mesmo aí transcendemos tudo. Porque o pensamento habita as estrelas, rompe todos os espaços. Por isso temos uma existência condenada. Não nos cabe nenhum equilíbrio, estamos sempre fora do centro. Dementes, em grau supremo. Homo Demens. É a nossa situação. Nosso arranjo existencial.
Mas sonhamos para além daquilo que é dado e feito. Sempre acrescentamos algo ao real. Somos projeto infinito. Projeto que não encontra neste mundo um quadro para suas realizações. Errantes, em busca de novas paisagens. Nada nos deixa enquadrar. Nada. Porque tudo é menor. Seres ilimitados e transcendentes.
Queremos, como seres desejantes, queremos. Buscamos a experiência da transcendência e encontramos na paixão. Por quê? Porque você sai de si e vai ao encontro do outro. Vive uma experência mística, de antecipação da eternidade na intimidade sexual e na expressão do amor. Se perde para dentro do outro e esquece-se do tempo numa fusão gratificante. Talvez o desejo seja nossa experiência mais imediata e mais profunda.
Somos todos seres desejantes. Não desejamos só isso e aquilo. Desejamos tudo e nos frustramos. Mas o nosso desejo é sempre virgem, sempre quer viver mais, prolongar o tempo, transcender a morte. Tentamos manipular a estrutura do desejo para uma coisa limitada e identificar essa coisa com a totalidade da realidade. É então que nos frustramos, porque o desejo quer o todo e só alcançamos a parte. Essa é a ilusão da realização do desejo infinito identificado com um objeto finito. Mas o obscuro objeto do desejo humano não é este ou aquele ser, esta ou aquela realidade. Não é um automóvel, não é uma mulher, não é escrever um livro, não é fazer teatro, não é ser isso ou aquilo. É mergulhar no ser, captar a nossa sintonia com a totalidade, é sentir que somos chamados ao ser pleno, e não ao pedaço do ser.
Vivemos no finito. Tudo o que tocamos é limitado. Mas nosso desejo é infinito, é ilimitado. Então, para sermos fiéis aos apelos de nossa interioridade, é preciso manter uma abertura infinita, sem confundir a realidade parcial com a totalidade da realidade. Se não mantemos a abertura, morremos. A dialética consiste então em manter o enraizamento e a abertura. Imanentes e trascendentes.
Mas qual o objeto adequado que pode nos satisfazer e trazer descanso? Por que quero a totalidade e só encontro fragmentos? Quero o absoluto e só encontro o relativo. Aqui revela-se nossa natureza insatisfeita e protestante. Talvez esse mal infinito seja nossa grandeza, nosso dinamismo, nossa essência... Não tentem me curar porque sou incurável.

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

Ecocardiograma Interplanetário

Se você pudesse mesmo obter uma imagem compreensível dessa estrutura e fazer um registro ecográfico fiel do que se passa no coração, diagnosticaria uma certa irregularidade nas suas contrações. Mas pra isso talvez eu precisasse fazer uma jornada pelas estrelas. Não que eu, satélite, estivesse solta pelo hiperespaço. Continuo na mesma órbita. Translação contínua ao redor do teu planeta. Sendo assim, considero viável. Afinal, embora tenha gente que não acredite até hoje, o homem já pisou na Lua. Acho que você indicaria a colocação de um marcapasso pra manter o ritmo. Isso. Uma maquininha pequenininha e capaz de controlar as desigualdades dos batimentos tão sujeitos aos meus caprichos. Não sei se me salvaria. Disfunções astronomicocardiológicas consomem anos-luz de investigação. Talvez uma junta científica pudesse discutir questões cosmicoronarianas porque a verdade da ciência versus o que há de tão passional em você só subscrevem na receita : "Catch me if you can". E eu acabo transmitindo na mesma frequência palavras que só pertencem a vc. Venal. Arterial. Presa na tua gravidade. E é curioso que num universo tão infinito, justamente a tua gravidade me mantenha nesse sistema solar. Tantas galáxias a serem desbravadas e o pobre satelitezinho aguardando o momento de teletransportá-lo pro seu corpo celestial. Pulsando descompassadamente e temendo um acidente vascular. Aguardando o dia em que finalmente a nave-mãe virá buscá-lo. Abduzi-lo. Ok. Que o músculo é involuntário eu também sei.

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

Primogênito significa o filho que nasce primeiro ?

Livro e livraria grande. Batata frita e linguiça.
Carro preto e carro vermelho. Força mística e padrinhos mágicos.
Zord Leão e Zord Gorila. Mão na boca e na sua também.
Quantas colheradas faltam?

Chiclete e bala. Teatro e cinema.
Ruth Rocha e Picasso. Joguinho de luta e casa do primo.
Fonte de acesso ilimitado e festa inaugural.
Posso dormir sem cueca?

Milhões de palavras e concordância. Jetix e Mc lanche feliz.
Bolinho e suco. Calinho no dente e furinho nas costas.
Gêmeos e Liga da Justiça. Sagú e sem carne.
Vai ter consequência?

Locadora e DVDido. Puxa-boi e Tamanduá.
Fotografia e sono que some. Televisão ligada e alguém que deixa.
Outro picolé e fala alto. Não se suja e dorme na minha cama.
Não é contra as regras?

Dias que faltam e data chegando. Pênis e vocabulário.
Ouve a história e pede mais uma. Mais açúcar e mais sal.
Eu te amo e eu também. Do tamanho do gorila e do tiranossauro Rex
O infinito é maior que o tiranossauro?

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Acho que vou fugir pra Itu...

upa neguinho na estrada
upa pra lá e pra cá
upa que coisa mais linda
ver o neguinho começando a andar, começando a andar, começando a andar...
e já começa a apanhar...


No mercado financeiro, o clima é de apreensão. A alta dos lucros acumulados no decorrer do período, aumenta a aversão ao risco. Na hora de abrir capital, vale abrilhantar a noite com beldades? vale. E optar pelo frappê de cappucino? vale. Vale provocar o desaparecimento do queixo da amiga caído em algum lugar pelo chão? ô se vale! Mas afinal, o vale não é de rio tão doce assim, né? Nessa hora, fundamentalista corre pro balancete e grafista apela pra Fibonacci... em vão. Investir em opções requer muito mais que gráficos e balanços. Requer gosto pela adrenalina da mesa de operações.

terça-feira, 13 de novembro de 2007

Some things are puzzles, puzzling me...

Sempre que te vejo assim
linda nua e um pouco nervosa
minha velha alma
cria alma nova
quer voar pela boca
quer sair por aí
e eu digo
calma alma minha
calminha
ainda não é hora de partir

então ficamos
minha alma e eu
olhando o corpo teu
sem entender
como é que a alma entra nessa história
afinal o amor é tão carnal
eu bem que tento
tento entender
mas a minha alma não quer nem saber
só quer entrar em você
como tantas vezes já me viu fazer
e eu digo
calma alma minha
calminha
você tem muito o que aprender

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

o dia em que Vênus morreu de amor

ufa... todos a minha volta estão derretendo de amor. Até os que amo até doer. E o meu gesto de amor? Seria curá-los do amor ou deixá-los beber dessa dor? Porque morrer de amor é morrer afogado, você busca o ar mas só encontra água. Conseguiu sacar porque o submarino e o zeppelin só são iguais no formato? Mas e então? Tento estancar ou deixo sangrar? Não que ser infeliz deixe alguém feliz, mas entope o coração do mesmo jeito. E viver entupido não obstrui o peito. Alarga o espaço prum novo leito.