segunda-feira, 26 de novembro de 2007

L'uomo, questo squilibrato


"O tempo é a tardança do que está por vir."
Martín Fierro


Desbordamos todos os esquemas, nada nos encaixa. Sempre nos sobra alguma coisa. Por mais aprisionados que estejamos, mesmo aí transcendemos tudo. Porque o pensamento habita as estrelas, rompe todos os espaços. Por isso temos uma existência condenada. Não nos cabe nenhum equilíbrio, estamos sempre fora do centro. Dementes, em grau supremo. Homo Demens. É a nossa situação. Nosso arranjo existencial.
Mas sonhamos para além daquilo que é dado e feito. Sempre acrescentamos algo ao real. Somos projeto infinito. Projeto que não encontra neste mundo um quadro para suas realizações. Errantes, em busca de novas paisagens. Nada nos deixa enquadrar. Nada. Porque tudo é menor. Seres ilimitados e transcendentes.
Queremos, como seres desejantes, queremos. Buscamos a experiência da transcendência e encontramos na paixão. Por quê? Porque você sai de si e vai ao encontro do outro. Vive uma experência mística, de antecipação da eternidade na intimidade sexual e na expressão do amor. Se perde para dentro do outro e esquece-se do tempo numa fusão gratificante. Talvez o desejo seja nossa experiência mais imediata e mais profunda.
Somos todos seres desejantes. Não desejamos só isso e aquilo. Desejamos tudo e nos frustramos. Mas o nosso desejo é sempre virgem, sempre quer viver mais, prolongar o tempo, transcender a morte. Tentamos manipular a estrutura do desejo para uma coisa limitada e identificar essa coisa com a totalidade da realidade. É então que nos frustramos, porque o desejo quer o todo e só alcançamos a parte. Essa é a ilusão da realização do desejo infinito identificado com um objeto finito. Mas o obscuro objeto do desejo humano não é este ou aquele ser, esta ou aquela realidade. Não é um automóvel, não é uma mulher, não é escrever um livro, não é fazer teatro, não é ser isso ou aquilo. É mergulhar no ser, captar a nossa sintonia com a totalidade, é sentir que somos chamados ao ser pleno, e não ao pedaço do ser.
Vivemos no finito. Tudo o que tocamos é limitado. Mas nosso desejo é infinito, é ilimitado. Então, para sermos fiéis aos apelos de nossa interioridade, é preciso manter uma abertura infinita, sem confundir a realidade parcial com a totalidade da realidade. Se não mantemos a abertura, morremos. A dialética consiste então em manter o enraizamento e a abertura. Imanentes e trascendentes.
Mas qual o objeto adequado que pode nos satisfazer e trazer descanso? Por que quero a totalidade e só encontro fragmentos? Quero o absoluto e só encontro o relativo. Aqui revela-se nossa natureza insatisfeita e protestante. Talvez esse mal infinito seja nossa grandeza, nosso dinamismo, nossa essência... Não tentem me curar porque sou incurável.

Um comentário:

Paula disse...

O desejar é ilimitado. Mas desejar o que insiste em ficar na direção oposta tem que ter limite.