Sempre ficava frustrada quando as histórias acabavam. Sempre a mesma coisa. Sempre o mesmo final que não é o final. Nos livros, nos filmes ou nas novelas, sempre o mesmo the end.
Nas fábulas o papo era sempre o mesmo: ... e eles foram felizes para sempre! E eu ficava lá, elocubrando quantos filhos a cinderela teve, se ela tinha problemas de relacionamento com a sogra rainha, se o corpinho dela continuou igual depois da gravidez...
E as novelas? Alguém duvida que no último capítulo vai ter um casamento lindo, campestre, igreja lotada de flores e de gente num lindo dia de sol? Mas e depois querido autor, o que acontece? As Helenas não se irritam quando seus formosos esposos chegam tarde em casa sem avisar? O Carlos Henrique nunca tem problemas de grana e fica sem saber como pagar a mensalidade da escola das crianças?
Mas afinal, quando é que é esse final?
A maioria da mulheres que conheço - e das que não conheço também - já nascem sonhando com esse momento. O momento do final feliz. O momento glorioso do the end. O dia em que serão finalmente felizes para sempre. Como também leram todas as fábulas e assistiram a todas as novelas, normalmente em suas cabecinhas, esse momento confunde-se com o dia em que encontrarão seu príncipe, sua alma gêmea. Eleitos para quem devotarão suas miseráveis existências. Fico me perguntando - será que elas não ficavam curiosas pra saber o que vinha depois? Ou será que é o contrário? Ficaram tão curiosas que passaram a correr desesperadamente afim de desvendar tal mistério?
Misteriosa também, é a interpretação que o mulheril fez da frase final. Onde se lê foram felizes para sempre leram: só foram felizes a partir desse momento. Desde então o dogma é seguido de geração em geração. Até esse grande dia, nada de ser feliz. A vida fica dividida em A.P. e D.P. Antes e depois do príncipe. Antes, lêem artigos e mais artigos de como conquistá-lo, de onde encontrá-lo, de como reconhecê-lo e infindáveis variações sobre o mesmo tema. Quando o ilustre candidato a tão aspirado posto surge, vêm os testes. Testam nas mesmas elevadas publicações se ele é o homem ideal, se é fiel, se o santo bate... Os conselhos tornam-se mantras. Nada de sexo no primeiro encontro e nada de dizer claramente o que pensa e sente pra não assustar o promissor possuidor da chave dos seus futuros dias felizes. Os dias que compõe a era antes alternam-se entre a agonia do telefone que não toca e os planos cor-de-rosa do nome dos filhos e da casa de praia que terão.
Outro ponto que merece investigação é o porquê das mulheres que pertencem a Era D.P. não esclarecerem esse mal entendido para as que pertecem a Era A.P. Elas já sabem! Já sabem que talvez, depois do gran finale, elas não serão tão felizes assim. Já sabem o que vem depois. O príncipe não quer saber de ajudar a olhar as crianças, a Cinderela não tem mais tempo para se encontrar com as amigas, o sexo fica meio arroz com feijão, o príncipe não repara que a Cinderela mudou o visual, o dinheiro não dá pra fazer uma viagem de lua-de-mel por ano... Não que isso tudo aconteça em todos os castelos e não que isso tudo torne as Cinderelas mais ou menos felizes. Mas peloamordedeus - esperar todo esse tempo pra ser feliz? E se o príncipe não aparece? E se o príncipe aparece mas depois do the end vira um baita sapo?
Algumas sócias generosas do seleto grupo das felizes para sempre (normalmente as mães), até tentam alertar as que estão na busca: Menina, a coisa não é bem assim! O céu não é de brigadeiro! Viva feliz hoje! Saia com as amigas, enfie o pé na jaca, dê para o maior número de homens interessantes possíveis, experimente, viaje, estude! Claro que a trama desses cérebros foi tecida com linha forte, daquelas grossas, pretas que alerta nenhum consegue afrouxar e elas continuam com o pensamento viciado na infelicidade de não terem encontrado o príncipe. Nem reparam como já dava pra ser feliz... Com príncipe, sem príncipe, com sapo, sem sapo, com anões, madrasta, grilo falante, fada madrinha, ou qualquer outro personagem que esteja nas suas fábulas.
Claro que pra mim é fácil falar de tudo isso já que não tenho um, mas dois príncipes: João e Bento. Um mais encantado que o outro. E embora minha vida não tenha chegado no the end, eu já comecei a ser feliz para sempre.
Nas fábulas o papo era sempre o mesmo: ... e eles foram felizes para sempre! E eu ficava lá, elocubrando quantos filhos a cinderela teve, se ela tinha problemas de relacionamento com a sogra rainha, se o corpinho dela continuou igual depois da gravidez...
E as novelas? Alguém duvida que no último capítulo vai ter um casamento lindo, campestre, igreja lotada de flores e de gente num lindo dia de sol? Mas e depois querido autor, o que acontece? As Helenas não se irritam quando seus formosos esposos chegam tarde em casa sem avisar? O Carlos Henrique nunca tem problemas de grana e fica sem saber como pagar a mensalidade da escola das crianças?
Mas afinal, quando é que é esse final?
A maioria da mulheres que conheço - e das que não conheço também - já nascem sonhando com esse momento. O momento do final feliz. O momento glorioso do the end. O dia em que serão finalmente felizes para sempre. Como também leram todas as fábulas e assistiram a todas as novelas, normalmente em suas cabecinhas, esse momento confunde-se com o dia em que encontrarão seu príncipe, sua alma gêmea. Eleitos para quem devotarão suas miseráveis existências. Fico me perguntando - será que elas não ficavam curiosas pra saber o que vinha depois? Ou será que é o contrário? Ficaram tão curiosas que passaram a correr desesperadamente afim de desvendar tal mistério?
Misteriosa também, é a interpretação que o mulheril fez da frase final. Onde se lê foram felizes para sempre leram: só foram felizes a partir desse momento. Desde então o dogma é seguido de geração em geração. Até esse grande dia, nada de ser feliz. A vida fica dividida em A.P. e D.P. Antes e depois do príncipe. Antes, lêem artigos e mais artigos de como conquistá-lo, de onde encontrá-lo, de como reconhecê-lo e infindáveis variações sobre o mesmo tema. Quando o ilustre candidato a tão aspirado posto surge, vêm os testes. Testam nas mesmas elevadas publicações se ele é o homem ideal, se é fiel, se o santo bate... Os conselhos tornam-se mantras. Nada de sexo no primeiro encontro e nada de dizer claramente o que pensa e sente pra não assustar o promissor possuidor da chave dos seus futuros dias felizes. Os dias que compõe a era antes alternam-se entre a agonia do telefone que não toca e os planos cor-de-rosa do nome dos filhos e da casa de praia que terão.
Outro ponto que merece investigação é o porquê das mulheres que pertencem a Era D.P. não esclarecerem esse mal entendido para as que pertecem a Era A.P. Elas já sabem! Já sabem que talvez, depois do gran finale, elas não serão tão felizes assim. Já sabem o que vem depois. O príncipe não quer saber de ajudar a olhar as crianças, a Cinderela não tem mais tempo para se encontrar com as amigas, o sexo fica meio arroz com feijão, o príncipe não repara que a Cinderela mudou o visual, o dinheiro não dá pra fazer uma viagem de lua-de-mel por ano... Não que isso tudo aconteça em todos os castelos e não que isso tudo torne as Cinderelas mais ou menos felizes. Mas peloamordedeus - esperar todo esse tempo pra ser feliz? E se o príncipe não aparece? E se o príncipe aparece mas depois do the end vira um baita sapo?
Algumas sócias generosas do seleto grupo das felizes para sempre (normalmente as mães), até tentam alertar as que estão na busca: Menina, a coisa não é bem assim! O céu não é de brigadeiro! Viva feliz hoje! Saia com as amigas, enfie o pé na jaca, dê para o maior número de homens interessantes possíveis, experimente, viaje, estude! Claro que a trama desses cérebros foi tecida com linha forte, daquelas grossas, pretas que alerta nenhum consegue afrouxar e elas continuam com o pensamento viciado na infelicidade de não terem encontrado o príncipe. Nem reparam como já dava pra ser feliz... Com príncipe, sem príncipe, com sapo, sem sapo, com anões, madrasta, grilo falante, fada madrinha, ou qualquer outro personagem que esteja nas suas fábulas.
Claro que pra mim é fácil falar de tudo isso já que não tenho um, mas dois príncipes: João e Bento. Um mais encantado que o outro. E embora minha vida não tenha chegado no the end, eu já comecei a ser feliz para sempre.
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