quinta-feira, 13 de março de 2008

Eu e o cálculo estequiométrico

No segundo ano do colegial, experimentou a sensação de não conseguir enfiar algo na cabeça. Boa aluna a vida toda, dessas que só tiram nove, ficava em pânico porque não conseguia entender. Até apelou pra professora particular. Aquela coisa de cálculos envolvendo a tabela periódica fugia de toda lógica.
O gosto era o mesmo de quando via prova e nunca sabia a resposta. A professora loira sabatinando... querendo entender a dificuldade. Por mais que estudasse, parecia-lhe que havia um bloqueio. Estava impedida de compreeender. Dez anos depois, o gosto lhe voltava à boca. A boca, o esôfago, o estômago, o tórax inteiro.
A capacidade de adivinhar o que ela queria impressionava. Antecipava seus desejos com tanta agilidade que ela temia ter pensado alto. Dançar era uma de suas maiores diversões. Dançar sozinha. A dois era sempre um esforço. Por mais que relaxasse, se flagrava buscando guiar seu par. Mas ele, vai entender, ele a fazia flutuar. Não por saber guiá-la tão bem, mas porque seguiam os mesmos passos sem ensaio algum. A abertura certa da boca no momento do beijo. A profundidade perfeita da língua. A hora certa de pedir. Ou não pedir. Os movimentos circulares exatos. A falta de pudores. A sobra de tesão. A troca de posição de cabeças olimpicamente cronometrada. A intensidade da mordida, a força das chupadas. Braços nunca esbarravam, pernas não se chocavam. Os dedos sabiam onde estar e a que velocidade agir. Os corpos não tinham peso nem travas. Uma dança que fluía como patins no gelo. Deslizavam um pelo outro, davam piruetas, mortais e voltavam ilesos.
A dança terminava assim que ela fechava a porta da casa dele. Como num cofre, a casa guardava todos os tesouros e segredos. Bastava sair dali que o código se perdia. Por mais que os beijos, as lambidas, os puxões e as dores fossem tão simétricas, aquilo era tudo que tinham um do outro. Queria acreditar que aquela perfeição era mais comum do que imaginava. Em qualquer esquina se encontra. Mas sem querer, já se via quebrando a cabeça para planejar um próximo encontro. Não era pra ser assim. Era pra acontecer naturalmente. Mas não. Exigia esforço, esboços, esquemas. Que nem decorar aquela tabela non sense. Quem nem a tal da estequiometria.
Queria saber a resposta. Sódio, cálcio, ouro. Que diabos era aquilo? Por fim, decidiu criar sua verdade e acreditar no que convinha. Enfiou na cabeça, como quem enfia um elefante num envelope, que ele era um homem daqueles que as revistas femininas alertam sobre. O homem clássico, instintivo, que consegue separar o melhor sexo do mundo de sentimento. Sim, era isso. E se não fosse, não importava. Ia acreditar naquilo. Criar sua própria tabela, definir os elementos, escolher as siglas de uma forma que tudo fizesse sentido. Quem sabe assim aprenderia?
Deixaria tudo que ele dissesse de bom varar seus ouvidos, já que não sabia brincar de licença poética. Estava decepcionada por não ser a mulher moderna que acreditava ser. Irritava não saber responder a si mesma. Era pra ser simples, exato, um fato isolado, como eclipse que acontece às vezes ou um meteoro que leva anos pra passar. Mas queria mais, mesmo sabendo que isso não aconteceria. Complicado como a tabela.
Esperava o telefone tocar. Um sushi, quem sabe. Um cinema, coisa boba. Não. É. É o homem. Aquele das revistas. Gostava dela ali, naquelas poucas horas, entre aquelas quatro paredes, quando ela tocava aquela campainha com uma desculpa lindamente esfarrapada. Em seus braços relaxava. Fora deles, buscava a fórmula para explicar que peça da engrenagem impedia os dois de darem mais um passo.
Maldita química.

3 comentários:

Paula disse...

"Estava decepcionada por não ser a mulher moderna que acreditava ser. Irritava não saber responder a si mesma. "

Ai, essa muderrnidade... assusta, né, bem? Sei bem.

Paula disse...

O iTunes do Rafa responde:
"Tão fácil perceber que a sorte escolheu você e você cego nem nota. Um dia ela já vai achar um cara que lhe queira como você não quis fazer. Eu sei que ela só vai achar alguém pra vida inteira como você não quis."

Feliz disse...

dedos, digitais, band-aid
pedra, papel ou tesoura
pêra, uva, maçã ou salada mista
aponta o dedo e escolhe
roi a unha, rui o pensamento
um mais um às vezes é igual a zero
não sabe contar não?
pode usar os dedos
jogar os dados
sorte no amor...
se der azar
te corto o mindinho